Discutindo os efeitos colaterais da punição
castigo
No post anterior, nós falamos sobre a definição de punição. No entanto, em nossa experiência clínica, observamos que este tema é alvo de grandes discussões e dúvidas, o que frisa a importância de discutirmos os efeitos do uso da punição (de diversos tipos, tais como a punição física, a retirada de um objeto de interesse da criança, o castigo, etc) como uma forma de educar/ensinar o que é certo e o que é errado às nossas crianças e às pessoas de nosso convívio.
Tendemos a achar que a punição é mais fácil e rápida de ser aplicada, pois observamos seu resultado imediato. Contudo, pesquisas científicas nos mostram que, ao contrário do reforçamento, em longo prazo a punição pode não trazer o resultado esperado, bem como gerar efeitos colaterais para quem pune e para quem é punido, efeitos estes que muitas vezes não são pretendidos e que podem aparecer muito tempo depois.
Ao punirmos alguém por um comportamento que julgamos inadequado é comum constatarmos que o sujeito para de fazer o que estava fazendo. Isto se dá porque a punição produz no sujeito punido alguns efeitos que são incompatíveis com o comportamento inadequado. Por exemplo, uma criança com autismo está se debatendo no supermercado porque quer um chocolate (e ainda não sabe falar) e recebe uma palmada de sua mãe. A dor sentida e os efeitos emocionais (coração disparado e a respiração ofegante) da criança são incompatíveis com os comportamentos motores de se debater. Porém, em outro momento tal comportamento volta a aparecer, por alguns motivos: 1) O agente punidor (mãe) não está mais presente para aplicar a punição 2) O valor do reforçador (chocolate) que a criança “pretende” receber desempenhando tal comportamento é muito alto (é o seu chocolate favorito e quase nunca lhe é permitido comê-lo) e ele volta a emitir o comportamento indesejado apesar da punição 3) O sujeito não aprendeu um comportamento alternativo para conseguir os reforçadores que obtém se comportando daquela maneira (não aprendeu a pedir para a mãe lhe dar o chocolate). Portanto, dizemos que houve apenas uma supressão do comportamento.
Ainda, quando se pune um comportamento, todo o ambiente é contaminado. Não se pode punir apenas o comportamento inadequado, pois existem muitos outros estímulos presentes na situação de punição. Dessa forma, vários destes estímulos podem adquirir uma função aversiva para a criança. Nesse caso, dependendo da intensidade da punição, o comportamento de pedir algo à mãe, o supermercado e até mesmo a própria mãe poderiam se tornar estímulos aversivos os quais a criança passaria a evitar (fugir e/ou se esquivar) para não sofrer a punição. Concomitantemente, sentimentos como culpa, vergonha, ansiedade, insegurança ou raiva poderiam aparecer sempre que a criança se deparar com esse estímulos. Assim, ao invés de aprender comportamentos novos que possibilitem reforçadores e o desenvolvimento de habilidades importantes, a criança apenas aprende o que não deve fazer para ser punida, ou seja, ela não deve se debater, mas não sabe o que fazer quando quiser requisitar algo à mãe. Em casos mais graves, a pessoa pode evitar a condição aversiva simplesmente não fazendo nada, não emitindo nenhum comportamento e tornando-se imóvel diante das circunstâncias, resultando em retraimento e dificuldades no relacionamento social.
Outro efeito colateral é conhecido como contra-controle, no qual a pessoa controlada apresenta uma nova resposta para evitar que o agente controlador detenha o controle sobre seu comportamento. Em nosso exemplo, a criança poderia se comportar de forma agressiva em relação à mãe.
Uma questão importante é discutir o uso de formas de punição “quando necessário” ou “de vez em quando”. Estudos científicos também mostram que a utilização de punição de forma intermitente (revezamento entre punição e intervalos de tempo sem punição) traz consequências negativas, pois a criança não consegue ter uma previsão de quando será punida e se comporta de forma a esperá-la constantemente, desenvolvendo padrões ansiosos e fóbicos.
Caros leitores, não se desesperem! Vivemos em uma sociedade em que a punição faz parte de nosso dia-a-dia e sabemos o quão árdua é a tarefa de nos desfazermos desta técnica.  Sendo assim, já que a punição gera vários efeitos indesejáveis, qual seria a alternativa a esse procedimento?
Cenas do próximo capítulo…
Referências:
SKINNER, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano (p. 198-209). Editora Martins Fontes. 11ª edição. São Paulo.

SIDMAN, M. (1953). Capítulo 2 – Nem todo controle é coerção. Em: Coerção e suas implicações. São Paulo: Editorial Psi.

Fonte da imagem: http://psicologia.blog.com/files/2011/11/castigo.jpg

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