passaros

Crianças com Transtorno do Espectro do Autismo possuem um atraso no desenvolvimento, no entanto, a forma pela qual aprendem os comportamentos é a mesma de qualquer outra criança: depende das consequências deste comportamento. É frequente que algumas dessas crianças apresentem comportamentos um pouco incomuns. Mas, devemos lembrar que qualquer comportamento só existe porque tem uma função no mundo e, nossa tarefa – como psicólogos – é compreender que função é esta!

Para ilustrar, vamos imaginar a seguinte história:

Carlinha é uma menina de 4 anos com TEA e frequenta uma escola regular. Ela ainda não desenvolveu habilidades de comunicação verbal expressiva, ou seja, não fala, apenas balbucia. Carlinha está em tratamento e vem aumentando seu interesse social: geralmente senta-se perto das crianças e aceita a interação social quando os coleguinhas propõem alguma brincadeira.

No entanto, a professora de Carlinha ficou muito preocupada, pois antes do tratamento Carlinha não tinha “problemas” com as outras crianças. No entanto, nas últimas semanas várias crianças estavam reclamando da “mania” de Carlinha ir com o dedo em direção ao olho delas.

A professora contou que este comportamento acontecia na maioria das vezes durante o recreio, quando Carlinha ficava mais isolada, já que as outras crianças realizavam atividades as quais Carlinha não conseguia realizar ainda. Assim, a menina saia de onde estava, ia até o colega e colocava o dedo dentro de seu olho.

Como consequência de cutucar o olho dos colegas, o colega imediatamente olhava para ela e a professora vinha correndo a repreender, o que parecia não adiantar já que esta começava a rir. Além disso, o colega que estava brincando, agora ficava ao lado de Carlinha contando para a professora o que ela havia feito e olhando para ela.

Assim, após algumas observações, concluiu-se que a “mania” de Carlinha em cutucar o olho das outras crianças era uma tentativa de iniciar uma interação social, atrair a atenção dos colegas e, até da professora, para ela. A repreensão da professora não tinha tal função para a menina, mas sim de atenção.

A partir disso, comportamentos alternativos ao “cutucar o olho”, mas com a mesma função (no caso iniciar interação social), foram ensinados para Carlinha como, por exemplo, cutucar o ombro do colega. Assim, ela foi deixando de cutucar o olho dos colegas e aprendeu um comportamento mais adequado, que possibilitou uma interação social de maior qualidade com os pares.

Esta história de Carlinha nos ensina o quanto é importante que nosso olhar para essas crianças vá além da forma como se comportam e procure relações de propósito. Imaginem o mal que faríamos para Carlinha se simplesmente intervíssemos visando que ela parasse de “incomodar” os colegas? Nossa cultura nos ensina que chorar, gritar, cutucar o olho do colega, beliscar é “feio”, mas olhar para o motivo de uma criança se comportar de determinada forma nos dá a vantagem de pensar em mudanças no nosso ambiente e em como nos relacionamos com ela, para que outros comportamentos mais adequados possam surgir.

FacebookTwitterGoogle+