O título deste texto parece um contrassenso: riscos da estimulação?! Como pode se falar em riscos de algo tão incentivado: estimular a sua criança?

Bom… certamente vocês familiares de pessoas com autismo recebem inúmeras orientações sobre como auxiliar no desenvolvimento de sua criança. Psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psiquiatras, e todos os outros profissionais têm a tarefa de apontar as habilidades que estão em déficit e fornecer ferramentas para que os pais, a escola e cuidadores criem formas de desenvolver tais comportamento no dia a dia da criança.

Mas então, o que há de mal em estimular a criança? Bom… vamos lá aos principais riscos:

1) Ao receber várias orientações de “ensino formal” da criança, os pais correm o risco de transformar a casa em mais uma terapia estruturada. Estamos falando de uma criança que já passa várias horas de seu dia em consultório realizando terapias estruturadas. Sua casa não deve ser mais um ambiente para isto!

Sugestão: O ambiente de casa deve ser um lugar para se aproveitar os momentos naturais da rotina para a estimulação, ao invés de criar mais contextos estruturados. Por exemplo, se os terapeutas orientaram que fosse trabalhado o atendimento de solicitações, é mais interessante os pais trabalharem isto pedindo para a criança ajudar a colocar a mesa, ou a guardar os brinquedos, do que criar um treino estruturado e artificial para o ensino.

2) Ao receber uma avalanche de ideias sobre o que fazer, é muito comum que os cuidadores se tornem muito ativos. Sendo muito ativos, muitas vezes a consequência imediata é um aumento da passividade da criança. Isto é um grande risco, porque quanto mais ativa a criança é no processo de aprendizagem, mais facilmente ela aprende e se desenvolve.

Sugestão: Estimular não significa fazer o máximo possível, o tempo todo. É necessário deixar um espaço para a criança agir de forma “autônoma”, de modo que ela se torne cada vez mais ativa.

3) Ao enfocar as metas para o desenvolvimento da criança, é comum que os cuidadores caiam na cilada de desqualificar o que a criança já faz, buscando começar o ensino do zero e já com foco no comportamento final. Imaginem o desânimo da criança quando alguém faz isto com ela… É o mesmo que você fazer um relatório super trabalhoso e seu chefe dizer que você pode jogar esta fora e fazer outro…

Vamos a um exemplo disso: a criança faz o gesto de tchau com a palma da mão virada para si mesma, ao invés de para o outro. O adulto diz “não”, pega sua mão e faz o tchau certo. Neste momento, além de desqualificar a forma como a criança já faz, o adulto ainda “incide” no erro 2, estimulando a passividade da criança.

Sugestão: Valorizar ao máximo a forma como a criança já age, demonstrando compreender sua iniciativa (por exemplo, do tchau) e ir fazendo somente pequenos ajustes para se aproximar gradualmente do comportamento final esperado.

É importante destacar que os profissionais também correm o risco de cair nessas ciladas! Desta forma, é muito importante ficarmos atentos à forma de estimular, para alcançar o que todos nós queremos: uma criança ativa e feliz.

FacebookTwitterGoogle+